sábado, 10 de abril de 2010

William Hogarth

“Procurei tratar meus temas como um escritor trágico: minha pintura é meu palco”.

William Hogarth (1697-1764).

Influenciado por mestres da sátira contemporânea, como Fielding e Swift, Hogarth inventou um novo gênero – a tira cômica – ou uma sequência de quadros anedóticos que zombava das cenas do cotidiano. As massas compravam gravuras, tiradas aos milhares, baseadas nesses quadros, e Hogarth tornou-se o primeiro inglês a ser amplamente conhecido no estrangeiro.

A missão da vida inteira de Hogarth foi superar o complexo de inferioridade da Inglaterra e a adoração dos artistas continentais. Ele criticava os Grandes Mestres, dizendo que haviam sido “valorizados na fumaça” do tempo e tinham se tornado quase indecifráveis. Denunciava os retratistas da moda como “pintores de caras”. Recusava-se a favorecer seus modelos em retratos, acreditando que as irregularidades revelavam o caráter. Em vista disso, recebia poucas encomendas, o que o levou a descobrir sua verdadeira vocação – gravuras satíricas.

Quando Hogarth era criança, seu pai, que era mestre-escola, foi preso por dívidas, experiência que marcou permanentemente o pintor. Em sua série The Rake’s Progress, Hogarth expõe francamente o lado avesso da vida, mostrando as condições deploráveis da prisão dos devedores e de Bedlam, o asilo dos loucos. Hogarth pode ser considerado também o primeiro cartunista político. Extraía inspiração de todos  os segmentos da sociedade, satirizando com igual aprumo a ociosa aristocracia, os trabalhadores urbanos embriagados (inédito nas artes visuais) e os políticos corruptos.

Mariage à la Mode, Hogarth. c. 1745. “Cena do Breakfast”, da série Marriage à la Mode, Hogarth, c. 1745

A série Marriage à la Mode ridiculariza uma jovem nova rica casada com um visconde dissoluto, casamento arranjado para elevar a posição social da primeira e a conta bancária do segundo. Como Henry Fielding, amigo de Hogarth, escreveu no romance cômico Tom Jones, “Seus desígnios eram rigorosamente respeitáveis, assim como suas palavras: isto é, roubar a fortuna de uma dama por meio do casamento”.

Hogarth usava toques para sugerir o enredo dos quadros. “Em cena do Breakfast”, a noiva olha de soslaio para o noivo adquirido com seu dote, enquanto o desmazelado nobre parece acabrunhado, ou de ressaca, ou ambos. Os ponteiros do relógio, apontando que passa do meio dia, sugerem uma noite de farra, indicada ainda pelas cartas no chão , a cadeira caída e a espada quebrada. A touca de renda no bolso do aristocrata insinua adultério.

A honestidade descomprometida aliada ao humor é a marca registrada da arte de Hogarth. Ele disse certa vez que preferia ter “impedido o progresso da crueldade a ser o autor [das pinturas] de Rafael”.

Carol Strickland. Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Barroco Inglês

O século XVII foi um período de sublevações (motim, revoltas) na Inglaterra: Carlos I perdeu a cabeça, Cromwell destruiu a arte sacra e o Parlamento tomou o poder. Enquanto na literatura os anos 1600 foram de extraordinária criatividade  (Shakespeare, Donne, Milton), as artes visuais ficaram para trás. Como a filosofia era proibida nas religiões puritanas e os temas mitológicos nunca estiveram em alta, a arte inglesa se limitava quase exclusivamente aos retratos. No passado, a Inglaterra havia importado pintores (Holbein e van Dyck). Agora pela primeira vez, produzia três artistas importantes: Hogarth, Gainsborough e Reynolds.

William Hogarth (1697-1764)

Mariage à la Mode, Hogarth. c. 1745. “Cena de Breakfast”, da série Marriage a la Mode, Hogarth, c. 1745

Thomas Gainsborough (1727-1788)

Mrs. Richard Brinsley Sheridan, Gainsborough 

“Mrs. Richard Brinsley Sheridan”, Gainsborough. c. 1785

Sir. Joshua Reynolds (1723-1792)

Jane, Condessa de Harrington, Reynolds, 1777 

“Jane, Condessa de Herrington”, Reynolds, 1777.

No próximo post, as informações sobre cada artista.

Carol Strickland, Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Johannes Vermeer: O Mestre da Luz

Chamado “Esfinge de Delft” devido ao mistério sobre sua vida, o pintor Johannes Vermeer (1632-1675) é hoje considerado secundarista apenas a Rembrandt dentre todos os artistas holandeses.  Morou em Delft, sua cidade natal, até morrer, falido, aos 43 anos, deixando mulher e 11 filhos. Poucos são seus quadros sobreviventes, apenas 35 a quarenta. Talvez ele não tenha pintado outros, pois nenhum pintor desde Ingres trabalhou com tanta deliberação.

E nenhum pintor, exceto van Eyck, tinha tanta técnica quanto Vermeer no domínio da luz. Enquanto outros artistas usavam uma gama de cinza/verde/marrom, as cores de Vermeer eram mais puras e vívidas, com uma intensidade de brilho jamais vista.

Além da maestria na cor e na luz, as composições perfeitamente equilibradas, de formas retangulares, emprestavam serenidade e estabilidade a seus quadros. Uma tela típica retrata um aposento limpo, fracamente iluminado por uma janela à esquerda e uma figura empenhada numa simples tarefa doméstica. O que eleva o tema acima da banalidade é a incisiva representação da realidade visual, as cores perfeitamente verdadeiras para o olho e a luz suave que se irradia pela sala. Seus quadros não contém história, paixão ou evento. Seu verdadeiro tema é a luz, suave, doce, quase palpável, vagando pelas diversas superfícies da imagem.

Vermeer usou uma “câmara obscura” para obter maior perfeição do desenho. Consiste numa caixa escura com uma abertura minúscula por onde  se projeta a imagem do objeto a ser traçado numa folha de papel. No entanto, Vermeer não se limitava a copiar as linhas de cena projetada. Seu manuseio da tinta também foi revolucionário. Embora as pinceladas pareçam planas e detalhadas nas reproduções, Vermeer frequentemente aplicava a tinta em esfregadelas e pontilhados de modo que a superfície saliente de um ponto na pintura refletisse mais luz, dando vibração e textura tridimensional mais áspera. Essa técnica se aproximava do pontilhismo dos impressionistas. Um crítico descreveu essa superfície como uma “mistura de pérolas socadas”.

A Criada de Cozinha, Vermeer, c. 1658“A Criada de Cozinha”, Johannes Vermeer, c. 1658

Esse método de definir as formas, não com linhas, mas com pontinhos de luz é evidente em “A Criada de Cozinha”, especialmente no contorno da abertura da jarra de leite, um mosaico de manchinhas. Vermeer foi também um mestre na variação de intensidade da cor em relação à distância entre o objeto e a fonte de luz. O pão crocante captura a luz mais forte e a reflete através de toques precisos de impasto (tinta aplicada em camada grossa). Atento demais aos pormenores, para evitar a monotonia da parede caiada de branco. Vermeer acrescentou-lhe manchas, buracos e até um prego. A composição é tão equilibrada e coesa que remover apenas um dos elementos ameaçaria a estabilidade do quadro. Embora despida de incidentes dramáticos, a absoluta concentração da criada na tarefa confere ao trabalho um ar majestoso. A respeito de Vermeer, um crítico observou que: “Nenhum pintor holandês homenageou tanto a mulher.”

Carol Strickland.  Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Rembrandt e suas técnicas

Quadros

A técnica de Rembandt evoluiu dos detalhes minuciosos para figuras em tamanho grande, pintadas com grandes borrões de tinta. Seu primeiro biógrafo escreveu: “Nos últimos anos de vida, ele trabalhava com tanta rapidez que seus quadros, vistos de perto, parecem rebocados com uma colher de pedreiro.” Ele praticamente entalhava o pigmento, espalhando com a espátula uma pasta pesada de “meio dedo” de espessura e desenhando na camada de tinta molhada com o cabo do pincel. O efeito é uma superfície irregular que cria um brilho ao refletir e difundir a luz, enquanto as zonas escuras levam uma fina camada vidrada para realçar a absorção da luz.

Seu único comentário sobre arte de que se tem notícia está numa carta, em que o pintor diz que trabalhava “com a maior e mais arraigada emoção”. O restante de sua contribuição para a arte ele deixou nas telas.

Auto-Retratos

Os quase cem auto-retratos de Rembrandt no curso de quarenta anos são uma exploração artística de sua própria imagem que permaneceu única até Van Gogh. Seus auto-retratos vão desde o jovem de olhos brilhantes até o idoso contemplando estoicamente sua própria decadência física. Entre estes, há vários retratos luminosos do empreendedor rico e bem sucedido, vestido em peles e ouro. Mais tarde, a distinção entre luz e sombra se tornou menos pronunciada, na medida em que ele passou a usar o chiaroscuro numa investigação mais interna de seu ser.

Rembrandt van Rijn, Auto-Retrato, c. 1629-1630“Auto-Retrato”, Rembrandt, aos 23 anos. c. 1629-30

A comparação entre um auto-retrato inicial e um tardio mostra a mudança das pinceladas finas para as espessas. No primeiro, Rembrandt tem cerca de 23 anos e usa uma iluminação caravaggiesca, (Caravaggio) deixando um lado do rosto imerso em sombra. Dava então tanta atenção aos detalhes superficiais dos trajes quanto aos traços de caráter. No auto-retrato posterior, Rembrandt tem 54 anos e o foco está no interior do homem, transmitido pela livre aplicação da tinta.

 

Rembrandt van Rijn, Auto-Retrato, 1660. “Auto-Retrato”, Rembrandt, aos 54 anos, 1660

Carol Strickland. Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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terça-feira, 6 de abril de 2010

“Guarda Noturna” ou “Ronda da Noite”

Exemplo de seu estilo inicial, esse quadro  mostra o domínio técnico de iluminação, composição e cor que  lhe valeram a fama de uma das maiores obras-primas do mundo.

Acreditava-se erroneamente que era uma cena noturna devido à camada  escura que recobria a pintura. Depois de uma limpeza, ficou evidente que  a cena se passava durante o dia, no dramático momento em que  o grande  capitão no centro dá a ordem de se pôr em marcha.

A  Guarda Noturna ou Ronda da Noite, Rembrandt, 1642“A Guarda Noturna” ou “Ronda Noturna”, Rembrandt, 1642 

Assim como Hals, Rembrandt revolucionou o retrato de grupo, não adotando o clichê de fileiras rigidamente ordenadas, mas captando um  momento  de ação coletiva, dando uma sensação de atividade febril  por meio dos  recursos barrocos de luz, movimento de pose. O capitão e o tenente parecem prestes  a dar um passo para entrar no espaço do espectador, enquanto os contrastes entre focos de luz e fundo escuro obrigam a um olhar em ziguezague pela tela. As linhas diagonais cruzadas de lanças, mosquetes, bandeira, tambor e pessoas fazem a cena parecer caótica, mas, como convergem  em ângulos retos, os elementos são parte de um padrão geométrico oculto que os mantém unidos. A harmonia de cores no uniforme do tenente e no vestido da menina , o vermelho da faixa e do uniforme do mosqueteiro também dão unidade ao quadro.

Diz a lenda que, como todos os membros da companhia tinham pago igualmente para se verem imortalizados no retrato, o fato de Rembrandt obscurecer alguns rostos desagradou aos modelos e marcou o começo do declínio das encomendas. Um discípulo do pintor disse que  Rembrandt deu “maior atenção ao ímpeto de sua imaginação do que aos retratos  individuais que deveria pintar”, mas acrescentou que o quadro é “tão arrojado em  movimento e tão forte” que, comparadas a ele, outras pinturas parecem  “cartas de baralho

O Estilo Rembrandt

ESTILO INICIAL, C. 1622-1642

ESTILO TARDIO, C. 1643-1669

Contrastes dramáticos de luz/sombra

Tons marrom-dourado, sombreado sutil

Desenho parece saltar da tela

Atmosfera estática, pensativa

Cenas de grupos de figuras

Cenas simplificadas com figura única

Baseado na ação física

Implica reação psicológica

Tom vigoroso, melodramático

Clima silencioso, solene

Acabamento preciso, técnica detalhada.

Pinceladas largas e grossas.

 

Carol Strickland, Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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