quarta-feira, 7 de abril de 2010

Rembrandt e suas técnicas

Quadros

A técnica de Rembandt evoluiu dos detalhes minuciosos para figuras em tamanho grande, pintadas com grandes borrões de tinta. Seu primeiro biógrafo escreveu: “Nos últimos anos de vida, ele trabalhava com tanta rapidez que seus quadros, vistos de perto, parecem rebocados com uma colher de pedreiro.” Ele praticamente entalhava o pigmento, espalhando com a espátula uma pasta pesada de “meio dedo” de espessura e desenhando na camada de tinta molhada com o cabo do pincel. O efeito é uma superfície irregular que cria um brilho ao refletir e difundir a luz, enquanto as zonas escuras levam uma fina camada vidrada para realçar a absorção da luz.

Seu único comentário sobre arte de que se tem notícia está numa carta, em que o pintor diz que trabalhava “com a maior e mais arraigada emoção”. O restante de sua contribuição para a arte ele deixou nas telas.

Auto-Retratos

Os quase cem auto-retratos de Rembrandt no curso de quarenta anos são uma exploração artística de sua própria imagem que permaneceu única até Van Gogh. Seus auto-retratos vão desde o jovem de olhos brilhantes até o idoso contemplando estoicamente sua própria decadência física. Entre estes, há vários retratos luminosos do empreendedor rico e bem sucedido, vestido em peles e ouro. Mais tarde, a distinção entre luz e sombra se tornou menos pronunciada, na medida em que ele passou a usar o chiaroscuro numa investigação mais interna de seu ser.

Rembrandt van Rijn, Auto-Retrato, c. 1629-1630“Auto-Retrato”, Rembrandt, aos 23 anos. c. 1629-30

A comparação entre um auto-retrato inicial e um tardio mostra a mudança das pinceladas finas para as espessas. No primeiro, Rembrandt tem cerca de 23 anos e usa uma iluminação caravaggiesca, (Caravaggio) deixando um lado do rosto imerso em sombra. Dava então tanta atenção aos detalhes superficiais dos trajes quanto aos traços de caráter. No auto-retrato posterior, Rembrandt tem 54 anos e o foco está no interior do homem, transmitido pela livre aplicação da tinta.

 

Rembrandt van Rijn, Auto-Retrato, 1660. “Auto-Retrato”, Rembrandt, aos 54 anos, 1660

Carol Strickland. Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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terça-feira, 6 de abril de 2010

“Guarda Noturna” ou “Ronda da Noite”

Exemplo de seu estilo inicial, esse quadro  mostra o domínio técnico de iluminação, composição e cor que  lhe valeram a fama de uma das maiores obras-primas do mundo.

Acreditava-se erroneamente que era uma cena noturna devido à camada  escura que recobria a pintura. Depois de uma limpeza, ficou evidente que  a cena se passava durante o dia, no dramático momento em que  o grande  capitão no centro dá a ordem de se pôr em marcha.

A  Guarda Noturna ou Ronda da Noite, Rembrandt, 1642“A Guarda Noturna” ou “Ronda Noturna”, Rembrandt, 1642 

Assim como Hals, Rembrandt revolucionou o retrato de grupo, não adotando o clichê de fileiras rigidamente ordenadas, mas captando um  momento  de ação coletiva, dando uma sensação de atividade febril  por meio dos  recursos barrocos de luz, movimento de pose. O capitão e o tenente parecem prestes  a dar um passo para entrar no espaço do espectador, enquanto os contrastes entre focos de luz e fundo escuro obrigam a um olhar em ziguezague pela tela. As linhas diagonais cruzadas de lanças, mosquetes, bandeira, tambor e pessoas fazem a cena parecer caótica, mas, como convergem  em ângulos retos, os elementos são parte de um padrão geométrico oculto que os mantém unidos. A harmonia de cores no uniforme do tenente e no vestido da menina , o vermelho da faixa e do uniforme do mosqueteiro também dão unidade ao quadro.

Diz a lenda que, como todos os membros da companhia tinham pago igualmente para se verem imortalizados no retrato, o fato de Rembrandt obscurecer alguns rostos desagradou aos modelos e marcou o começo do declínio das encomendas. Um discípulo do pintor disse que  Rembrandt deu “maior atenção ao ímpeto de sua imaginação do que aos retratos  individuais que deveria pintar”, mas acrescentou que o quadro é “tão arrojado em  movimento e tão forte” que, comparadas a ele, outras pinturas parecem  “cartas de baralho

O Estilo Rembrandt

ESTILO INICIAL, C. 1622-1642

ESTILO TARDIO, C. 1643-1669

Contrastes dramáticos de luz/sombra

Tons marrom-dourado, sombreado sutil

Desenho parece saltar da tela

Atmosfera estática, pensativa

Cenas de grupos de figuras

Cenas simplificadas com figura única

Baseado na ação física

Implica reação psicológica

Tom vigoroso, melodramático

Clima silencioso, solene

Acabamento preciso, técnica detalhada.

Pinceladas largas e grossas.

 

Carol Strickland, Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Rembrandt van Rijn

Provavelmente o pintor mais conhecido no mundo ocidental é Rembrandt van Rijn (1606-1669). Enquanto viveu, Rembrandt teve enorme sucesso como pintor de retratos. Atualmente, sua fama repousa principalmente nos quadros sérios, introspectivos, de seus últimos anos, pinturas em que o sombreado sutil implica uma extraordinária profundidade emocional.

Início da carreira

Nos primeiros vinte anos de sua carreira, os retratos feitos por Rembrandt estavam sempre na moda, e ele vivia assoberbado com o número de encomendas. Apesar de prolífico no trabalho, era uma pessoa difícil de lidar. “Um quadro fica pronto” ele dizia, “quando o pintor acha que está pronto.” Os clientes frequentemente recorriam ao suborno para receberem seu retrato no prazo. Durante esse próspero período, Rembrandt pintava também cenas bíblicas e histórias em estilo barroco, obras extremamente detalhadas, com iluminação dramática e figuras melodramáticas.

Flora, Rembrandt, óleo sobre tela, 1634, 1ª fase da carreira Flora, Rembrandt - 1634

A virada da carreira

O ano de “A Guarda Noturna”, 1642 marcou uma virada na carreira de Rembrandt. Sua amada esposa morreu prematuramente e ele gradualmente  abandonou a arte fácil do retrato com floreados barrocos, substituindo-os por um estilo calmo e profundo. Nessa fase de maturidade, a arte de Rembrandt tornou-se física e mais psicológica. Voltou-se para os temas  bíblicos mas dando-lhes um tratamento mais contido. Uma gama de vermelhos e marrons e figuras solitárias passaram a dominar sua pintura, impregnada com o tema da solidão. Rembrandt expandiu os limites do chiaroscuro, usando gradações de luz e sombra de modo a transmitir clima, caráter e emoção.

A  Guarda Noturna ou Ronda da Noite, Rembrandt, 1642 Guarda Noturna ou Ronda da Noite, Rembrandt, 1642 – óleo sobre tela

Xilogavura

Em termos de gravura, Rembrandt é considerado o mais perfeito de todos os tempos. Manuseava o buril com tamanha técnica e rapidez que seus trabalhos têm a espontaneidade de um esboço. Dizem que uma de suas gravuras mais conhecidas, a paisagem “Ponte dos Seis”, foi feita entre o primeiro e o segundo pratos de um jantar, enquanto a criada fora à vila buscar mostarda.

Carol Strickland. Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós- Moderno. imagem. Coleção Folha, Grandes  Museus do Mundo.

Buril: Instrumento de aço usado por gravadores.

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domingo, 4 de abril de 2010

Frans Hals – O mestre do momento

A contribuição de Frans Hals (1580-1666) para a arte foi sua habilidade para captar a expressão passageira. Seus quadros podiam retratar músicos, ciganos ou cidadãos respeitáveis, mas todos eram trazidos à vida, geralmente rindo e levantando uma caneca. Sua marca registrada são os retratos de homens e mulheres apanhados num momento de alegre diversão.

O quadro mais famoso de Hals. “O Cavaleiro Sorridente”, retrata um tipo matreiro com um sorriso nos lábios, brilho nos olhos e bigode airosamente  curvado para cima. Hals obteve esse ar de gabolice principalmente com o efeito das pinceladas. Antes dele, os realistas holandeses se orgulhavam de disfarçar as pinceladas para esconder o processo de pintura, aumentando assim o realismo do quadro. A “assinatura” de Hals eram golpes do pincel, fortes, à maneira de esboço.

O Cavaleiro Sorridente, Frans Hals, 1624.“O Cavaleiro Sorridente”, Frans Hals, 1624

Em sua técnica alla prima, que significa “de imediato” em italiano, o artista aplica a tinta diretamente na tela, sem uma camada  de preparação, e termina o quadro com essa única aplicação de tinta. Embora as pinceladas de Hals sejam claramente visíveis de perto, assim como nas telas de Rubens e Velázquez, formam imagens coerentes à distância e captam com perfeição o imediatismo do momento. Ele captou seu “Alegre Beberrão” congelando um momento de vida, os lábios separados como se prestes a falar, a mão no meio de um gesto.

O Alegre Beberrão, Frans Hals, 1627, óleo sobre tela.“O Alegre Beberrão”, Frans Hals, 1627

Hals transformou a rígida convenção do retrato de grupo. Em seu “Banquete dos Oficiais da Companhia de Guarda São Jorge”, o artista não retrata os componentes da milícia como guerreiros, mas como festeiros num alegre banquete. Antes dele, a tradição mandava que os artistas pintassem os membros do grupo como numa foto da classe, dispostos como efígies em fileiras bem demarcadas, Hals sentou-os em poses relaxadas em volta de uma mesa, interagindo naturalmente, com cada expressão facial individualizada.

 

Banquete dos Oficiais da Companhia de Guarda São Jorge, Frans Hals“Banquete dos Oficiais da Companhia de São Jorge”, Frans Hals 

Embora a cena pareça improvisada, a composição tem um equilíbrio de poses e gestos, unidos pelo vermelho, pelo branco e pelo preto. As diagonais barrocas de estandartes, faixas e golas pregueadas reforçam a sensação de orgulho da farra de jovens.

Os retratos sociais, alegres, das décadas de 1620 e 30, revelam o talento de Hals para avivar, e não preservar, o modelo. Infelizmente, seu final de vida foi triste. Embora retratista famoso, o amor ao vinho e à cerveja mostrado em seus quadros transbordou para sua vida pessoal. Com dez filhos e uma segunda mulher brigona sempre com problemas com a polícia, Hals “enchia a cara” toda noite, segundo um amigo seu, e morreu de ostracismo.

Carol Stickland. Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno.

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sábado, 3 de abril de 2010

Natureza-Morta

Surgiu como um gênero de pintura nos Países-Baixos pós-Reforma. Embora considerada uma forma inferior em outros lugares, o século XVII foi o período áureo da natureza-morta na Holanda, onde os artistas atingiram um extraordinário realismo retratando objetos domésticos. A natureza-morta era frequentemente emblemática: as pinturas vanitas mostravam símbolos como crânios e velas fumegantes representando a transitoriedade da vida.

pintura vanita Pieter Claesz, Vanitas, óleo sobre madeira, 1645

Os mestres holandeses que lançaram  a natureza-morta como um gênero separado se interessavam pelo modo como a luz incidia em diferentes superfícies. A “Natureza-morta” de Heda contrapõe o fulgor mortiço do estanho ao brilho forte da prata e do cristal.

Natureza- Morta - Willem Claesz Heda, 1635“Natureza-morta”, Heda, c. 1636, óleo sobre madeira

No século XVIII, o pintor francês Chardin difundiu o gênero no sul, concentrando-se em objetos modestos. Pintores do século XIX como Corot, Coubert e Manet usaram a natureza-morta para estudar as qualidades estéticas dos objetos. Cèzanne, os cubistas e os fovistas empregaram esse gênero para experimentações com estruturas e cores, enquanto o pintor italiano Morandi se concentrou quase exclusivamente em naturezas-mortas. Um estilo de pintura trompe l’oeil fotorrealista surgiu nos Estados Unidos com as naturezas-mortas dos irmãos Peale, seguido pelos “enganos” realistas de Harnett e Peto, e chegando a artistas contemporâneos, como Audrey Flack.

Paisagem

Antes do período barroco, as paisagens eram pouco mais que um fundo para o que acontecia no primeiro plano do quadro. Os holandeses consideraram a paisagem  merecedora de um tratamento artístico próprio. Em  contraste com a França, onde Poussin e Claude se concentraram numa natureza idealizada, os grandes paisagistas holandeses  como Aelbert Cuyp, Jacob van Ruisdael e Meindert Hobbema  trataram a natureza com realismo, geralmente com um fundo de altas nuvens num céu cinzento.

Moinho em Wijk-bij-Duurstede, Ruisdael, c. 1665“Moinho em Wijk-bij-Duurstede”, Ruisdael.

As paisagens de Ruisdael transmitem dramaticidade através do céu tormentoso, das nuvens em movimento e de sol e sombra alternados cortando o horizonte baixo.

O mais versátil pintor de paisagens foi Ruisdael (1629-1682). Embora pintasse detalhes nitidamente definidos, enfatiza grandes espaços abertos de céu, água e campos, usava contrastes dramáticos de luz e sombra e nuvens ameaçadoras para infundir melancolia e sua obra. Essa expansividade e esse humor sombrio o distinguiram das centenas de artistas que trabalhavam  em paisagens na época.

Carol Strickland, Arte Comentada, Da Pré-História ao Pós-Moderno. imagem:Coleção Folha, Grandes Museus do Mundo.RIJKSMUSEUM. Amsterdã.

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